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Da poeira do Oklahoma ao barro do Pirajuçara – Parte II
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“Vós, ainda assim, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós com indulgência.”
Bertold Brecht

Apesar de trabalhar desde criança e de ter comprado os dois volumes de “As Vinhas da Ira” com parte do ½ salário-mínimo mensal que recebia na farmácia, quando mergulhei no romance de John Steinbeck era eu um garoto de 12 anos que praticamente nada sabia acerca do mundo ou de si mesmo, além do fato de ser mais um filho, dentre os cinco que até então haviam vingado numa prole de sete, de mais um dos muitissimos casais de migrantes paupérrimos e com baixa escolaridade que habitavam o Vale do Pirajuçara.

Com a resiliência e a religiosidade dos adultos aprendíamos desde cedo a normalizar as adversidades da vida na quebrada. A escassez, a precariedade e a violência com as quais lidávamos cotidianamente eram justificadas através da “vontade de deus” ou pelas circunstâncias familiares e escolhas individuais de cada um.

Corria o ano de 1982. Morávamos numa casa em construção com a alvenaria exposta, chão de terra batida e goteiras na laje. Apesar de mal-acabada, ela representava um avanço em relação ao casebre de pau-a-pique preexistente no terreno da Rua 10 de Março, Jardim São Salvador, para o qual nos mudamos em 1976, fugindo dos incessantes alagamentos da moradia anterior, na Rua Santo Antonio, localizada no mesmo bairro, ainda assim, às margens do Córrego Joaquim Cacheira, cota de inundação da Bacia do Pirajuçara. Lembro-me de que as enchentes periódicas deixavam os registros dos níveis máximos das águas nas linhas de barro impregnadas nas paredes da casa onde minha mãe me pariu em fins de 1969, conforme consta da minha certidão de nascimento.

Retrospectivamente, percebo a leitura de “As Vinhas da Ira” como um processo no qual a estética deu à luz a ética: as personagens cativantes, a ambientação imersiva e o ritmo empolgante do drama ficcional sobre uma família reduzida à miséria, forçada a abandonar sua terra natal à procura de trabalho e dignidade, despertou-me a consciência social com relação à minha própria família e à nossa comunidade, majoritariamente composta por migrantes nordestinos.

Subitamente, dei-me conta da dimensão coletiva da nossa tragédia familiar, tanto mais que meu pai e minha mãe, a exemplo da maioria dos migrantes moradores na área do Pirajuçara, sequer tiveram alguma vez patrimônio próprio em seus Estados de origem, ao contrário dos Joads, que por três gerações haviam possuído uma pequena propriedade rural perdida por endividamento bancário.

Assim como Tom Joad, personagem central do romance, expandi a compreensão da realidade em que vivia a contar das reflexões angustiadas e ações corajosas de Jim Casy, que junto com Tom e sua mãe, Ma Joad, formam a tríade de personagens que dão densidade psicológica à narrativa de Steinbeck e a sustentam até o final.

Ao dialogar com as falas de Casy, compreendi uma verdade a léguas de distância da minha ingenuidade e dos preconceitos aos quais estávamos habituados para explicação da realidade: tanto o êxodo da década de 1930 nos EUA, quanto a migração massiva de nordestinos para São Paulo que atingiu o ápice na década de 1960, embora afastados por décadas e contextos do país, tinham como causa preponderante uma combinação implacável de crises econômicas, desastres climáticos e exclusão social.

De volta a Jim Casy, ele é amigo dos Joads desde a infância de Tom. Devastado através do sentimento de culpa por ter tido relações íntimas com algumas das jovens de sua congregação, abandona o ofício de Pregador (“Preacher”), tornando-se um andarilho atormentado por questionamentos sobre Deus, santidade e pecado. Por acaso, ele reencontra o filho de Pa e Ma Joad voltando para casa, em liberdade condicional depois de ter cumprido 4 anos de prisão por homicídio culposo. O ex-pregador relata a Tom que os Joads se preparam para deixar Sallisaw em busca de trabalho na Califórnia, tal qual muitos outros vizinhos já tinham feito, e se disponibiliza para acompanhá-lo até sua casa.

No caminho, eles relembram o passado dos Joads e outras estórias da vida na comunidade que não mais existia. Conversam também sobre as tempestades de poeira (“Dust Bowl”) e a mecanização agrícola que estavam destruindo o modo de vida e as oportunidades de subsistência dos pequenos agricultores. Ao chegar em casa, Tom convida Casy a juntar-se à família na migração e o ex-pregador aceita, vendo na viagem uma oportunidade de retomar sentido à vida.

Durante o percurso, progressivamente Casy ganha convicção de que a santidade reside nas conexões reais entre os seres humanos e não em crenças abstratas. Ele renuncia à ideia de um mundo à mercê da “vontade de deus” e passa a depositar sua fé no poder extraordinário e transformador da união entre as pessoas, formando uma só alma:

“Talvez sejam todos os homens e todas as mulheres que amamos; talvez seja o Espírito Santo — o espírito humano — tudo junto. Talvez todos os homens tenham uma grande alma da qual todos fazem parte. Agora eu fiquei pensando nisso, e de repente — eu soube. Eu soube tão profundamente que era verdade, e ainda sei.”

Casy é desafiado a colocar em prática suas novas convicções e faz vários atos de altruísmo e coragem, como quando assume a responsabilidade por uma briga e se entrega à prisão para impedir que Tom, em liberdade condicional, volte à cadeia. Diante da crescente exploração dos trabalhadores e da escalada da violência dos patrões, Casy tenta organizar um sindicato, ainda assim, sua atuação política terá desfecho dramático durante uma greve dos trabalhadores da colheita de pêssegos.

Aos 12 anos aprendi com “As Vinhas da Ira” que “okies” e “baianos”, separados através do tempo e por milhares de quilômetros, figuravam uma mesma tragédia social. O romance demonstrou para mim a falsidade da proposição ideológica que atribui à “vontade de deus”, ou aos próprios pobres, a responsabilidade exclusiva através da pobreza. Sensibilizar-me precocemente com relação à natureza universal e complicada das estruturas e dinâmicas sociais livrou-me da resignação fatalista diante da vida e da reprodução compulsória de padrões socialmente determinados.

Acima de tudo, a busca através da verdade pessoal, a fé na humanidade e a necessidade de coerência entre este tipo de fé e a ação prática, personificadas por Jim Casy, convenceram-me da urgência de assumir uma postura ética e politicamente engajada na transformação da realidade em que vivia. E a despeito do desfecho dado por Steinbeck à Casy, ler “As Vinhas da Ira” encheu o peito do garoto com um sentimento que mais à frente ele aprenderia chamar-se “esperança”. *

* Dedico esta crônica às minhas irmãs e irmãos que juntos vivemos os ásperos tempos: Sidney (in memoriam), Neusa (in memoriam), Silvana, Amilton (in memoriam), Altamiro e Dirce. E para os que vieram depois de nós: Robson, Vanessa e Fábio; Manoel Neto e Augusto César; João Antonio, Maria Julia e Amélia; Rafael e Maria Clara, e Geyse.

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Fonte: O Taboanense

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